Favela improvisada nasce na Avenida Brasil, no lugar do BRT Transbrasil

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Ao lado da cracolândia, barracos com pedaços de papelão, plástico, tecido e tábuas recolhidos do lixo são montados na pista onde vai funcionar o corredor, que deveria ter sido inaugurado em 2016.

Ela não queria ser identificada para não “envergonhar” os parentes que vivem na favela Nova Holanda, na Maré. Mas, apesar do apelo, X. de 33 anos não parece se incomodar com o local onde mora. Ela mostra orgulhosa o seu barraco, que tem quarto e sala, decorados com cama, cadeira e sofá e até mesmo um vasinho com flores artificiais. A casa improvisada, erguida com pedaços de tecido, plásticos e tábuas recolhidas do lixo, fica na pista construída para passagem do BRT, que virou uma espécie de expansão da cracolândia que existe há anos na Avenida Brasil.

A favelinha onde X. vive, que surgiu no trecho em obras do corredor Transbrasil, na altura do Parque União, entre o Restaurante Popular de Bonsucesso e o Arco Prefeito Pedro Ernesto, cresce a olhos vistos. Na tarde de quinta-feira, já eram mais de dez barracos. Alguns deles, de madeira, ocupam também a parte de cima do viaduto em construção que servirá de ligação entre o corredor e o Transcarioca. Nesta sexta-feira, havia pelo menos seis casas ali. Nem mesmo a calçada do restaurante popular, que é administrado pela prefeitura, está livre. Pelo menos quatro barracos foram erguidos junto à parede do estabelecimento.

A maioria dos vizinhos de X. é usuária de crack. Mas ela, que divide o barraco com o marido e dois jovens, que considera seus filhos, diz que não usa drogas. Ela conta que vive nas ruas há cerca de 15 anos, depois de cumprir penas por roubo. Para sobreviver, vende água mineral nos engarrafamentos diários da avenida.

— Nem todo mundo aqui é usuário de droga, mas a maioria é. Sou ex-presidiária, mas já paguei minha conta com a Justiça e limpei meu nome. Mesmo assim tenho dificuldade de tirar documentos e arrumar um emprego — diz a mulher, acrescentando que não tem medo de ser removida do lugar onde está irregularmente — Se o choque de ordem levar (o barraco), a gente monta de novo.

Um dos barracos erguidos na pista do BRT Transbrasil, que teve obra interrompida várias vezes: um casal e dois jovens vivem às margens da Avenida Brasil, sem qualquer ação pública Foto: Gabriel de Paiva

Promessas não cumpridas

Em outubro de 2017, o prefeito Marcelo Crivella fez uma visita à cracolândia da Avenida Brasil, quando aproveitou para dar posse ao então secretário municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, Pedro Fernandes, que hoje ocupa a pasta da Educação. Os dois anunciaram que seria construído um espaço de acolhimento na região, em parceria com a Fundação Leão XIII, e abertos 200 leitos para o tratamento de usuários de drogas. Pelo menos a parceria com a fundação não saiu do papel.

A cracolândia nasceu e se multiplica fica no trecho da Avenida Brasil que está em obras há quatro anos para a implantação do BRT. O corredor deveria ter ficado pronto para a Olimpíada de 2016, mas as intervenções pararam diversas vezes por problemas de orçamento. A nova data de inauguração é dezembro deste ano.

Para a engenheira de tráfego Eva Vider, da Escola Politécnica da UFRJ, uma obra demorada como a do Transbrasil impacta na mobilidade.

— A fluidez do trânsito está prejudicada. O pior impacto quando você para uma obra é que, quando vai recomeçar, muita coisa se deteriorou. Esse desgaste pode provocar um custo maior na retomada e aumento no tempo de finalização, além de impactar a mobilidade.

A Secretaria municipal de Infraestrutura e Habitação, responsável pela implantação do BRT, afirmou que, quando a atual gestão assumiu, a obra, que agora foi retomada, estava paralisada. Procurada, a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos informou, em nota, que realiza diariamente ações de abordagem nos bairros do Rio, conforme seu organograma. Disse ainda que “a Avenida Brasil é um dos locais que a SMASDH está presente, geralmente com outros órgãos da prefeitura. Vale ressaltar que a população em situação de rua é composta por pessoas que estão nas ruas por diferentes motivos e motivações. Trata-se também de grupos sociais diversificados itinerantes que andam pelas ruas, de acordo com os interesses de sua sobrevivência. A SMASDH informa que os acolhimentos não são compulsórios, mas, sim, de acordo com a vontade da pessoa em situação de rua abordada pelos técnicos da secretaria. No próximo dia 30, a SMASDH irá realizar ação no local em conjunto com a SEOP e Comlurb. A Secretaria de Infra estrutura irá concluir a obra em dezembro.”

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