Dony De Nuccio fez negócio milionário com plano de saúde e sai da Globo

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Além dos negócios milionários com o Bradesco, pesou na decisão da Globo de rescindir contrato com Dony De Nuccio o fato de o jornalista, então apresentador do Jornal Hoje, ter realizado serviços de “consultoria de comunicação” para a Amil Assistência Médica, pelos quais cobrou R$ 1,2 milhão.

Documentos aos quais um site de notícias teve acesso revelam que a parceria era efetivamente de assessoria de imprensa, o que conflitava com os interesses da emissora (e de qualquer outro veículo sério) e com a ética profissional.

De Nuccio era ao mesmo tempo apresentador de telejornal e sócio (com Samy Dana) de uma empresa que orientava uma das maiores operadoras de planos de saúde do país a aparecer bem na mídia. Os documentos indicam que De Nuccio elaborava para a Amil propostas de reportagens que poderiam virar notícia em vários veículos, especialmente na Globo.

Em outras palavras, a empresa de De Nuccio vendia potenciais notícias que poderiam vir a ser veiculadas no próprio veículo em que ele trabalhava, como “Dieta mediterrânea reduz em 22% risco de derrames em mulheres, aponta estudo britânico”. E usava os conhecimentos que tinha da estrutura da emissora em benefício próprio. Isso vai contra os princípios básicos dos jornalistas, tanto dos de veículos quanto dos que servem a empresas e personalidades (assessores de imprensa).

A Prime Talk também sugeria à Amil o “programa/telejornal” em que a notícia tinha mais chance de emplacar. Em um e-mail de 15 de outubro do ano passado, De Nuccio determinou à sua equipe que passasse a incluir nas pautas “sugestão de contato na pauta (nome/cargo/contato)”. Traduzindo: ele indicava à Amil profissionais da Globo (e de outras emissoras) que deveriam ser procurados, facilitando o trabalho e aumentando as chances de sucesso.

As pautas que a Prime Talk encaminhava à Amil tinham detalhada descrição do assunto, com riqueza de informações, e vinham com “sugestão de porta-voz”, fontes (da Amil) que poderiam ser entrevistadas pelo veículo.

Por esses serviços, a empresa de Dony recebeu da Amil, no último trimestre do ano passado, R$ 1,2 milhão em seis parcelas de R$ 200 mil. As notas fiscais, às quais um site de notícias teve acesso, especifica o serviço prestado apenas como “consultoria de comunicação”.

Nota fiscal da empresa de Dony De Nuccio para a Amil

O próprio jornalista admitiu que fez assessoria de imprensa na carta dirigida a Ali Kamel, diretor-geral de Jornalismo da Globo, na qual pediu demissão, divulgada no início da tarde de ontem (1º) –leia a íntegra do texto no fim deste texto:

“Quero acrescentar também que depois de nossa longa conversa e do relato mais pormenorizado que lhe fiz sobre as atividades já desempenhadas pela Prime Talk, há um serviço pontual que incluiu o que pode ser interpretado como assessoria de imprensa. Entendo com os olhos de hoje que o escopo dos serviços prestados ultrapassa os limites do que a Globo espera de seus jornalistas”, escreveu Dony ao ex-chefe.

Jornalista negociou contrato de R$ 60 milhões

De Nuccio teve de pedir demissão da Globo ontem após um site de notícias enviar à emissora cópia de um e-mail que provava que ele negociava diretamente com clientes de sua empresa, diferentemente do que ele vinha sustentando até então, de que não participava do dia a dia da Prime Talk e que só gravara alguns vídeos para veiculação interna no Bradesco.

No e-mail, de 8 de janeiro deste ano, Dony apresentava a Glaucimar Petivcov, diretora-executiva do Bradesco, uma detalhada proposta para “reformular, desenvolver e implementar uma nova e completa estratégia de Comunicação Interna do Banco Bradesco”. Os serviços seriam executados durante 36 meses, mediante o pagamento de 36 parcelas de R$ 1.678.800, mais de R$ 60 milhões no total.

Em seu pedido de demissão, De Nuccio alegou que foi “traído pela memória” por ter omitido, ao ser questionado anteriormente por Ali Kamel, que participara dessa negociação.

Nos dois anos de existência da Prime Talk, o Bradesco foi o principal cliente. A empresa de Dony De Nuccio e Samy Dana faturou com o banco o total de R$ 7.239.692, a maior parte no início deste ano, conforme revelou o um site de notícias na terça-feira (31). Entre esses serviços, estavam vídeos em que o próprio Dony exaltava os produtos da Bradesco Seguros.

A Amil foi o segundo maior cliente da Prime Talk, da qual De Nuccio disse ter se desligado em meados de julho, quando a existência dos vídeos que ele gravou escondido da Globo vieram à tona. Com o plano de saúde, a produtora faturou R$ 1.337.800 em dois anos.

Além da consultoria de comunicação, a Prime Talk gravou vários vídeos para a Amil. O plano de saúde, a propósito, foi o primeiro cliente da empresa.

O terceiro maior cliente foi a Ultragaz, mas os serviços foram exclusivamente de assessoria econômica. A Prime Talk também fatura bem com palestras e cursos do economista Samy Dana.

Procurada pelo Notícias da TV, a Amil disse que não iria comentar o assunto. A Globo também não se manifestou especificamente sobre os serviços de Dony de Nuccio à Amil. A emissora tem documentos públicos que orientam a conduta de seus profissionais e seus Princípios Editoriais, nos quais está claro que seus jornalistas não podem fazer publicidade ou assessoria de imprensa.

Nos próximos dias, a emissora deve editar nova norma sobre a participação de jornaistas em eventos e vídeos institucionais de empresas (leia mais abaixo).

Apresentador diz estar sofrendo onda de ataques

A seguir, o e-mail em que Dony De Nuccio pediu demissão a Ali Kamel e apresentou sua defesa:

Caro Ali,

Como afirmei anteriormente, não tinha conhecimento de que os tipos de serviços prestados pela empresa à qual estava ligado contrariavam normas da Globo. Reitero que minha função não era negociar valores com clientes, mas sim trabalhar na concepção dos projetos e em seu conteúdo.

Frente à recente onda de ataques que venho sofrendo, e com indícios de criminosa invasão de computadores, arquivos e mensagens, procurei vasculhar o histórico de dois anos de emails enviados por mim enquanto cumpria função na empresa. De fato, na esmagadora maioria das vezes, eu não tratava de valores com contratantes. Mas, em algumas circunstâncias pontuais, e das quais eu sinceramente não me recordava, há sim menção a cifras e projetos. Nos poucos casos em que isso aconteceu, a proposta geralmente não prosperou e a contratação não foi efetivada. De qualquer forma, fui traído pela memória. E me penitencio por isso.

Quero acrescentar também que depois de nossa longa conversa e do relato mais pormenorizado que lhe fiz sobre as atividades já desempenhadas pela PrimeTalk, há um serviço pontual que incluiu o que pode ser interpretado como assessoria de imprensa. Entendo com os olhos de hoje que o escopo dos serviços prestados ultrapassa os limites do que a Globo espera de seus jornalistas. E lamento que, mesmo sem dolo, não tenha percebido isso antes. Não quero mais – por qualquer que seja o artigo ou vazamento na contínua tentativa de destruir minha reputação – constranger você, a Globo ou a minha família.

Desde muito cedo na vida sonhei em trabalhar com televisão, e procurei ao longo de toda minha trajetória me preparar para poder, algum dia, agregar muito valor aos quadros da Globo. Foi pensando nisso que procurei a formação acadêmica mais sólida possível, com jornalismo, economia, extensão internacional e mestrado em economia e finanças.

Em 2011 abri mão de uma promissora carreira no mercado financeiro, para me tornar repórter nos quadros da Globo. Parecia uma decisão difícil, mas não foi: representava o começo de uma nova caminhada, com a qual eu sonhava desde tempos remotos.

Dentro da emissora tive a possibilidade de trabalhar nos mais diversos telejornais e funções, e participar de algumas das coberturas mais marcantes da história do nosso país. Fui repórter do Jornal da Globo, do BDSP, SPTV1 e SPTV2. Fui editor de economia e comentarista do Jornal das 10 e do Hora 1. Ajudei a criar e depois apresentar programas como o Conta Corrente e GloboNews Internacional, além de ancorar o próprio J10, participando de análises políticas e econômicas com algumas das maiores referências do ramo no jornalismo brasileiro. Nos últimos dois anos, tive a imensa alegria e desafio de comandar o Jornal Hoje, dividindo bancada com a talentosa, inspiradora e hoje amiga pessoal, Sandra Annenberg. E ainda pude apresentar o Fantástico e o Jornal Nacional em diversas ocasiões.

Olho no retrovisor com alegria e satisfação por toda essa caminhada, e sou muito grato a você e à Globo pela oportunidade que me deram de bater asas, trabalhar duro e voar alto, ocupando alguns dos mais importantes postos do telejornalismo brasileiro. Fico orgulhoso e feliz com o que pudemos construir e criar juntos.

Mas, assim como é preciso persistência e suor para crescer, é preciso sabedoria para parar.

Nas últimas semanas me vi mergulhado em uma infindável onda de ataques, com a vida dentro e fora da Globo vasculhada e revirada, sigilos fiscais violados, endereços expostos, trabalhos de exclusiva veiculação interna publicados, e até e-mails privados hackeados.

Quanto mais perto estamos do topo da montanha, mais forte é o vento. E é esperado que seja assim. Mas essa contínua campanha para me destruir e sangrar a qualquer custo não pode prosperar. Não faz bem nem a mim, nem à minha família e nem à emissora. Não é justo com nenhum de nós.

Por esse motivo, embora com aperto no coração, solicito meu afastamento do telejornalismo.

E o faço com o espírito leve e a consciência tranquila, porque jamais ajo de má fé. Jamais tive o intuito de burlar regras ou obter benefício que julgasse incompatível com as funções que ocupava na emissora (isso sim, seria incompatível com a minha história pessoal). Trabalhei, duro e dobrado, para complementar a renda, fora do horário da Globo, e dentro dos limites que ao meu ver eram compatíveis e aceitáveis. Se errei, não foi com dolo, e humildemente peço desculpas.

Estou convicto de que em cada um dos dias em que aqui estive tratei com respeito e lealdade a todos com quem interagi, independentemente da função ou hierarquia. E sempre enxerguei a todos não como colegas de trabalho, mas como amigos.

Saio, neste momento, certo também de que em cada um dos dias e anos em que aqui trabalhei, sempre atuei com absoluta paixão e dedicação para levar ao público a notícia da forma mais atraente, correta, completa e interessante possível.

Mais uma vez, muito obrigado pela parceria, pelas oportunidades e pela confiança.

Construímos uma história incrível.

Dony de Nuccio.”

Globo vai editar nova norma para jornalistas

Juntamente com o e-mail (acima) em que Dony De Nuccio pediu demissão a Ali Kamel, a Globo divulgou nota informando que irá editar em breve um texto tornando mais claras as regras para participação de jornalistas em atividades fora da emissora. Confira:

“A direção de Jornalismo da Globo informa que foi procurada por alguns de seus jornalistas que relataram que foram contratados por terceiros para participação em eventos institucionais gravados em vídeo, mas sempre com proibição expressa de que as imagens fossem veiculadas ao público externo ou a clientes.”

“Em alguns casos, a participação se deu com autorização da Globo por não ferir as políticas atuais da empresa. Em outros casos, a participação foi inadequada, mas sem má-fé. Todos informaram que não possuem empresas prestadoras de serviços de marketing, assessoria de imprensa ou de projetos de comunicação empresarial.”

“A Globo, ciente agora de que persistem em algumas dúvidas sobre como agir diante de convites, informou que em breve um comunicado reiterará o que é proibido e o que não é, em detalhes, levando em conta a era digital em que vivemos.”

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