Artista retrata história de crianças que têm ‘infâncias roubadas’

Conheça a história de Bruno Dante, o artista que denuncia em sua arte a violência contra crianças.

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Os bonecos de que o artista visual Bruno Dante cria não são de contos de fadas. As histórias, muitas vezes reais, são de vítimas da violência e de violações ao direito de ser criança.

Uma bala perdida deu origem à série “Infâncias roubadas”. “A beleza da escultura, para mim, representa um pouco da beleza do que é ser uma criança. Aí de repente tem um tiro no meio. O que você faz com isso?”, indaga Dante.

Bruno Dante, criado em Realengo, acredita que sua forma de se posicionar no mundo é questionar e transformar isso em arte.

“Comecei a pintar, coloquei o uniforme. Aí, quando coloquei o tiro, eu desandei. Não aguentava olhar muito, parecia que tinha algo personificado”, recorda Dante.

‘Eu desandei’

O tiro a que o artista se refere foi o que matou o estudante Marcus Vinícius, de 14 anos, atingido a caminho da escola durante uma operação policial na Maré.

“A partir disso, ele me impulsionou a me expressar sobre todas essas crianças. Como a criança vivencia isso? Como ela é jogada nesse lugar? É uma expressão estética, quem sente é quem está lá”, explica.

Outros trabalhos de Bruno representam crianças que são inseridas no trabalho escravo ou indígenas que tem as terras em risco.

Para ele, as histórias de pessoas não conhecidas são as mais fascinantes.

“São pessoas que estão movimentando a cidade. Crianças que estão vendendo bala no sinal, a mulher que pega todo dia aquele ônibus lotado e vai para o trabalho. Eu fico pensando o que passa na cabeça dessa pessoa. Que expressão é essa que me diz tanta coisa? Eu tento interpretar isso a partir do que eu sinto”, detalha.

Subúrbio como inspiração

Bruno conta que era “um pouco inconformado” de viver em Realengo. “Mas isso foi desconstruindo na minha cabeça, porque me permitiu um outro olhar sobre a cidade”, admite.

“Até hoje eu tenho a minha família lá e volto sempre, principalmente em momentos que eu tenho que resgatar algumas coisas sobre eu mesmo. Me sinto privilegiado de conhecer o Rio como um todo”, diz.

“Cresci em Realengo e, de alguma maneira, viver no subúrbio era como sentir a distância das coisas que aconteciam pela Zona Sul e do Centro. Vejo um reflexo em quem eu sou hoje, eu como artista”.

Bruno diz estar o tempo todo dialogando com o Rio. “A cidade pede para ser olhada. Busco histórias, observando. A partir de um rosto que eu vejo. E aquele rosto me traduz muita coisa. Fico pensando: ‘O que passa na cabeça dessa pessoa?’”, questiona.


Bruno é de Realengo, no Rio, mas seu relato poderia, infelizmente, também ser da Baixada.

Fonte: G1

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