Preconceito e ameaças após denunciarem estupro na Rural em Seropédica

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Os últimos dez dias foram os piores que o mestrando Francisco Andrade, de 27 anos, já viveu. O alojamento da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, as ruas, a ciclovia, tudo lembra a namorada, Isadora Cezar, que tirou a própria vida no dia 25 de maio sem se despedir.

Só ela poderia dizer o que realmente sentiu”, contou o jovem, que não consegue evitar, e passa os dias remontando o que pode ter levado Isa a não querer viver nem mais um dia.

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Na parede do armário do alojamento da Rural, Isadora deixou seu protesto: ‘Meus corpo, minhas regras’ Foto: Arquivo Pessoal 

A estudante, que havia trancado o curso há dois meses, demonstrava a amigos mais próximos ter superado relativamente bem o estupro vivido dentro de um quarto no campus, há três anos e meio. Ainda assim, a convivência com o homem que apontou como agressor e os olhares de desaprovação recebidos por colegas homens e mulheres, além de professores, tornavam o peso de ir à universidade insuportável. O mesmo acontece com dezenas de jovens mulheres, coagidas em seu dia a dia na Rural depois de denunciarem os frequentes casos de abuso sexual no campus e nos arredores.

Isadora e Francisco eram namorados há mais de um ano: 'Estávamos bem, felizes', disse o jovem
Isadora e Francisco eram namorados há mais de um ano: ‘Estávamos bem, felizes’, disse o jovem Foto: Reprodução / Facebook

Em mensagem enviada a uma professora dias antes de sua morte, Isadora deixa algumas pistas de um sofrimento invisível para quem convivia com ela. No texto, a estudante comentava sobre machismo e fazia referência a um livro que, segundo ela, ajudou a entender algumas questões: “Quando cheguei ao limite do estresse devido à repressão que sofri na Rural, consegui entender que só quem consegue ler (o livro) é quem já sofreu muito. E nós, mulheres, sofremos demais e superamos tudo. Porque somos fortes demais. Somos irmãs de pais diferentes. E temos que nos ajudar. Então sei que sou só uma, mas sinta-se abraçada, porque você é uma guerreira”, escreveu.

Estupro: “Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima”.

Isadora foi estuprada em outubro de 2012, dentro do alojamento masculino da universidade, como relatam pessoas próximas a partir do que ela lhes contou. A estudante passaria a noite acompanhada do rapaz com quem se relacionava, mas teve uma surpresa quando ele se levantou para ir ao banheiro: outro jovem, amigo dele, se deitou em seu lugar e começou a beijá-la e agarrá-la. Quando percebeu que se tratava de outra pessoa, esperneou, brigou e gritou, desvencilhando-se do agressor. Em seguida, os rapazes riram da situação, dizendo que se tratava de uma brincadeira. Entretanto, pela lei 12.015 de 2009, são considerados crimes contra a dignidade sexual “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso; e “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima”.

— Isa sofreu intimidação não só de alunos, como represálias de professores, porque o estudante era muito conceituado. Já ela era vista como vulgar, porque usava roupa curta. Defenderam o cara e a botaram em segundo plano, e ela sofreu bem mais depois da violência, porque era chamada de piranha, entre outros nomes. Além disso, os olhares, as encaradas, eram tão frequentes que ela não conseguia mais estudar — detalhou Francisco.

Amigos contam que Isadora passou a vivenciar rotina de repressão após denuncia de estupro até mesmo por professores
Amigos contam que Isadora passou a vivenciar rotina de repressão após denuncia de estupro até mesmo por professores Foto: Reprodução / Facebook

Uma amiga de Isadora, que preferiu não se identificar, diz que as duas se aproximaram muito depois que descobriram, em comum, a violência sexual sofrida em Seropédica, e acabaram unindo forças para lidar com as dores do pós-violência. A estudante lembra do sofrimento relatado pela amiga diante do deboche de outros alunos:

— Ela sempre falou com muita raiva do abuso, mas era do tipo “bola para frente, isso nao vai me atingir”, mesmo quando era ridicularizada em sala de aula por pessoas que se diziam suas amigas. Uma vez, um professor disse para ela não estragar a vida do rapaz (identificado como autor do estupro) com a denúncia, porque ele era muito bom. Isa não tinha apoio de ninguém, então se tornou muito difícil para ela, tanto que os anos depois do estupro foram muito mais difíceis do que a violência em si— revela a amiga, lamentando a falta de suporte: — Isa não contou para a família porque tinha medo da reação do pai. Achava que ele ia querer fazer justiça e achou melhor não dizer. Só resolveu se abrir há pouco tempo — conta.

Pouco antes de sua morte, Isadora deixou uma mensagem para uma professora. Nela, deixava transparecer o sofrimento após denunciar abuso sexual
Pouco antes de sua morte, Isadora deixou uma mensagem para uma professora. Nela, deixava transparecer o sofrimento após denunciar abuso sexual Foto: Reprodução / Facebook

Sob a tensão da violência cotidiana, Isa ficou reprovada em várias disciplinas em função de faltas e baixo rendimento, e sentia necessidade de deixar aqueles sentimentos reprimidos no passado, conta o namorado. Buscou, em fevereiro, um ritual de autoconhecimento em Itatiaia, no interior do estado do Rio de Janeiro, realizado com chá de Ayahuasca, e voltou animada com a experiência, como revela Francisco. Um mês depois, Isadora repetiu a experiência: era seu aniversário de 24 anos, no dia 24 de março, e ela queria deixar marcado seu recomeço. Seria sua chance de renovar.

Pouco antes de sua morte, Isadora enviou uma mensagem a uma professora. Nela, relatava estar sob profundo estresse depois de viver o que chama de
Pouco antes de sua morte, Isadora enviou uma mensagem a uma professora. Nela, relatava estar sob profundo estresse depois de viver o que chama de “repressão” na Rural

— Ela começou a ter alucinações e visões na segunda vez que tomou o chá. Ficava transtornada, não dormia. Tenho certeza de que a Isa não se mataria se não fosse pelo chá, mas acho que ela pode ter procurado porque não era nada fácil para ela perdoar, por exemplo. Não temos como dizer por que ela fez isso, só ela podia dizer, mas os últimos anos não precisavam ter sido tão difíceis — diz o namorado, enquanto tenta conter as lágrimas. Já a amiga conta que, durante o que chama de “surto” de Isadora, recebeu uma ligação em que a amiga narrava a preocupação com uma colega de alojamento:

— Isa dizia que podia sentir que a colega estava sendo estuprada naquele momento, num sofrimento muito grande, é como se sentisse todas as dores que a amiga sentia, mas era apenas uma alucinação. Quinze minutos depois, a menina estava em casa e bem — descreve, sem aceitar a morte da amiga: — Era uma guerreira, uma inspiração para mim. Nunca baixava a cabeça, estava sempre pronta para lutar. Acho que sua morte pode ter alguma relação com o estupro, mas o chá a tirou do normal — conta, aos prantos.

“Me Avisa Quando Chegar”, página criada no Facebook, é de um movimento criado por mulheres para exigir mais segurança e conscientização a respeito do estupro Foto: Reprodução / Facebook

Francisco explica que, preocupado com o desequilíbrio emocional da namorada, chegou a levá-la para ver mais de um especialista. Um deles, um psiquiatra, receitou um medicamento controlado, mas Isa não adotou a prescrição: — Ela achava que só precisava de um atestado para trancar a faculdade e que poderia voltar a si sem remédios— conta Francisco, revoltado com o desfecho da violência sofrida pela namorada: — O agressor está vivo e bem, jamais foi preso. Isso não é justo — diz.

Leia relatos de estudantes que sofreram estupro ou tentativa na Rural e em seus arredores:

“Não é pela sua roupa”, diz vítima de estupro em Seropédica em relato

Eu e Isadora nos aproximamos pelo fato de que vivemos uma situação parecida. O meu foi no dia 24 de julho de 2013. Morava perto de um bar, um point de Seropédica perto do quilômetro 48, numa república. Não tinha ninguém além de mim em casa, e meu namorado estava na faculdade. O filho da vizinha bateu à porta dizendo que precisávamos conversar sobre as minhas gatas e, como eu a conhecia, acabei abrindo. Assim que o vui me arrependi, porque ele estava claramente fora de si e começou a falar coisas desconexas, como “ eu tenho uma arma e gosto de matar pessoas”. Perguntou da menina que morava comigo, mas na verdade sabia que eu estava sozinha e, quando, enfim, tomei coragem para fechar a porta e interromper a conversa, ele forçou a entrada, me deu uma chave de braço e me ameaçou de morte.

Nessa loucura dele, sentei para acalmá-lo na varanda em mais de uma hora de conversa. Ele com aquele discurso de que tinha uma arma, sempre ameaçou todos de morte. De repente ele começou a falar que eu era muito bonita, que queria namorar comigo, e me obrigou a ir para dentro de casa.

Ele nos trancou no quarto e deixou a chave do lado de dentro. Ele tinha me violentado já e estávamos no chão quando ouvi meu namorado chegar da Rural. No meu caso, ele foi preso. Ele era um louco, investigado por dois homicídios. Depois que aconteceu comigo eu fiquei sabendo de muitos casos, porque é quando as pessoas começam a se abrir. Tentei voltar para a Rural, tentei ficar lá um semestre ainda, mas eu nao consegui voltar para aquele ambiente com tantos casos de estupro e, sabendo das coisas que estavam acontecendo, nao aguentei.

A Isadora sofreu muita represália, diziam pra ela que ela se vestia mal, que usava shortinho, mas eu estava de moletom, na minha privacidade, e fui estuprada. Não é o que você passa para os outros, é quem faz isso com você que está errado.

‘Sensação de impotência e fracasso que me acompanha o tempo todo’, diz criadora da página ‘Abusos cotidianos’

Era maio, férias, mas eu fazia estágio e tive que continuar no campus durante a semana. No domingo, um cara me abordou e tentou me estuprar na frente do prédio onde eu estudo, perto de onde fica a guarda da universidade. A minha sorte doi que o carro da segurança é bem iluminado e, quando passou, parecia que poderia entrar na rua. Vendo isso, o cara me largou e correu para a rua. É perto da rodovia, fácil de fugir. Fiquei em choque completamente, não me mexi e só depois de muito tempo tive coragem de pedir ajuda no prédio do DCE. O guarda me perguntou porque não corri para a guarda e disse que, por causa do tempo que levou até a denúncia, não podia garantir. “Tem que tomar cuidado, ficar saindo sozinha à noite”, o guarda disse.

No dia seguinte, a ficha ainda não tinha caído, mas eu procurei a reitoria. Disse que não queria ir para o estágio, que estava com medo, e consegui semana de folga. Desenvolvi síndrome do pânico porque nao conseguia mais entrar no prédio e fiquei reprovada um semestre inteiro porque não conseguia entrar, era onde eu tinha aula. Acabei também perdendo a minha bolsa. Comprei uma briga com a universidade durante dois anos porque não achava justo. Afinal, não conseguia entrar no prédio. Eles me devolveram dois anos depois em outro local.

Eu escondi da minha família por muito tempo. Só que eu me viciei nos remédios que o psiquiatra passou, porque eu queria dormir o dia todo pra não lembrar. Chegou um dia em que eu tive uma “overdose “com os remédios e quase morri. Foi aí que a minha família descobriu. Isso me fez ficar um período fora da universidade, além do período que eu já tinha reprovado. Fui prejudicada em tudo. Eu tenho o meu histórico manchado por uma culpa que não é minha.

É ruim ter que conviver com isso, porque é uma sensação de impotência e fracasso que me acompanha o tempo todo. Vou tentar intercâmbio semana que vem e sei que não vou passar. Eu tenho reprovações e abandonos que não são minha culpa, mas eu pago o preço da violência todos os dias.

Decidi criar a página Abusos Cotidianos para dar voz às vítimas, já que todas têm medo de denunciar. Sofremos muita repressão. Um dia, fiz uma reunião pública e o estuprador de uma menina a seguiu até o local para ter certeza de que ela não ia falar nada contra ele. Outra vez, numa festa, um homem puxou meu braço. Somos ridicularizadas com frequência.

Casos de estupro mobilizam a internet

De acordo com o Instituto de Segurança Pública, oito casos de estupro foram registrados no 48° DP de Seropédica, entre janeiro e abril de 2016, enquanto a Divisão de Guarda e Vigilância da UFRRJ afirma ter anotado um caso e uma tentativa este ano. Para o diretor de segurança do campus, Renan Canuto, as alunas têm medo de denunciar os agressores.

— As alunas temem ameaças, sabendo que podem continuar encontrando os responsáveis no campus que, aliás, é muito grande e de difícil controle. Não temos acesso às festas que acontecem nos alojamentos, por exemplo, e portanto não temos como garantir a segurança delas lá dentro — afirma.

A página Abusos Cotidianos, no ar no Facebook desde 2013, surgiu depois que sua fundadora sofreu uma tentativa de estupro dentro do campus. A estudante, que não quer se identificar também por conta de ameaças e intimidações que vem recebendo, quis criar um espaço para que vítimas conseguissem ter voz, sem medo. Desde então, já recebeu mais de 600 relatos de violência sexual de vítimas desde década de 70. Em 2015, foram 67 casos de estupro, tentativa de estupro, abuso moral e perseguição praticados por alunos e professores contra alunas.

— Temos muitos problemas na hora de registrar a denúncia na universidade. Primeiro porque às vezes eles dão outros nomes para os crimes. Quando sofri tentativa de estupro, colocaram como agarramento de pescoço. Além disso, não descreveram o gênero do agressor. Sempre levo isso para as reuniões com a reitoria: não podem desmerecer a violência sexual — conta.

Pró-reitora Adjunta de Assuntos Estudantis da Rural, Juliana Arruda diz que os registros apontam menos de dez denúncias formalizadas entre abril de 2013 e o mesmo mês de 2016, e faz um apelo para que as alunas denunciem:

— Entendemos que a exposição do fato não é fácil, que romper com o ciclo de violência vivenciado realmente é muito doloroso para a denunciante, principalmente em função das estruturas administrativas existentes tanto na universidade quanto na rede de atendimento (postos de saúde e delegacias). No entanto, sem o registro formal, além de não podermos agir administrativamente, as ocorrências ficam subestimadas e não refletem a verdade, assim como dificulta a demanda por serviços especializados, por exemplo, o estabelecimento de uma delegacia da mulher em Seropédica — diz.

Sobre a convivência entre agressores e vítimas no campus, a professora disse que a univeridade vem investigando caso a caso:

— Quanto aos casos de violência que são notificados à administração, têm sido abertos processos de sindicância, de acordo com a legislação em vigor, cujas comissões sugerem as penalidades a serem aplicadas em cada caso, desde que apurada a culpabilidade dos indiciados — afirmou Juliana, que concorda com a importância de mudar as regras que regem os alunos da universidade em função do grande número de casos de violência sexual dentro da universidade:

— O nosso código disciplinar remonta à década de 70 e precisa ser atualizado, inclusive este primeiro movimento de reformulação ocorreu em 2013 com a apresentação de proposta ao Conselho Universitário. No entanto, após ser solicitada vistas ao processo por um conselheiro, o mesmo encontrase parado — relatou.

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