Educação é chave para as economias de sucesso’, diz Robert Lucas

Ganhador do Nobel de Economia em 1995 vê com preocupação limite de gastos na área

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Nobel de Economia em 1995, o professor da Universidade de Chicago Robert Lucas defende que a educação é o principal fator que diferencia uma economia de sucesso das demais.

Ele vê com preocupação a proposta de limitar os gastos na área no Brasil e alerta para as consequências:

— Quando se cortam investimentos em educação, toda uma geração de crianças vai crescer ignorante. E o país vai pagar por isso.

Em entrevista no Rio após participar de seminário no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), Lucas admite o crescimento mais lento da economia americana e o aumento da desigualdade, mas é enfático ao afirmar que “não há crise” nos Estados Unidos nem há base para o debate proposto por Donald Trump de “tornar o país grande de novo”.

Em sua apresentação, destacou a existência de dois mundos em alguns países. Como vê isso?

Tenho pensado sobre a situação de ainda existirem dois mundos em países da África, do Sul da Ásia e das Américas, o das pessoas não instruídas e daquelas com nível educacional de países avançados. Há 200, 300 anos, todo país tinha a maioria da população não instruída, que trabalhava com as mãos, e uma minoria de educados, que trabalhavam com o cérebro. Algo alterou esse equilíbrio em certos países, enquanto não houve progresso em outras nações.

Como isso se explica?

Muito do que foi feito na Europa e nos Estados Unidos tem a ver com educação. Em um país como o nosso, a maioria das pessoas tem acesso à boa educação, e o mundo científico está ao alcance delas. Quanto mais o país estiver envolvido em educação, melhor estará. A educação é a diferença-chave entre as economias de sucesso e as demais. Há outras questões, como a governança ruim, mas educação é chave. No Brasil, a corrupção é uma questão importante, mas ocorre em todos os lugares. Em geral, a América Latina não vai bem em educação. Há escolas de fronteira, como a Fundação Getulio Vargas e o Impa, mas poucos têm acesso.

O debate sobre educação no Brasil se voltou para a questão da qualidade. Qual é a importância?

Esta é uma questão difícil. Meu colega James Heckman (Nobel de Economia em 2000) está trabalhando duro nisto. Apenas colocar pessoas numa sala de aula com um professor por cinco horas não garante nada. É preciso saber quem é o professor e o que ele pode oferecer. Muito do que aprendemos na escola está ligado à interação com outros alunos e à influência dos pais. Eles acompanham, estimulam o estudo… É uma questão privada. Mas, se os pais não cuidam, o governo deve interceder? Com pais ruins, a pessoa está em maus lençóis desde o primeiro dia.

O debate sobre o problema fiscal no Brasil inclui teto para os gastos com saúde e educação. Isso é preocupante?

Todo país no mundo tem déficits, e isso também é realidade no meu estado, Illinois. Em uma situação fiscal delicada, o governo tem de avaliar tópico por tópico e decidir o que é mais importante. Se há invasão em um país, por exemplo, os recursos se voltam para o setor militar. A mesma coisa com as crianças. Não há uma fórmula. Mas não há escolha: ou se cortam os gastos ou se aumentam os impostos.

Mexer nos gastos com educação traz consequências?

Não conheço a situação fiscal no Brasil. Mas, se há um gasto de 5% do total com educação, é possível que haja muitas despesas para reduzir antes da educação. Quando se cortam investimentos em educação, toda uma geração de crianças vai crescer ignorante. E o país vai pagar por isso. Pessoas cujos talentos poderiam ser úteis no futuro em muitas áreas estarão em desvantagem. É um problema de longo prazo. Qualquer pai saberia isso. Se um pai tem dois filhos, coloca em uma boa escola. Se perder o emprego e tiver um terceiro filho, não pode simplesmente deixar o filho sem escola. Uma pessoa decente deve lidar com isso. Um país decente deve lidar com isso.

Como vê a economia americana e a atuação do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA)?

O que a Janet Yellen (presidente do Fed) está fazendo é garantir que a inflação não fique à deriva. Eles têm o poder de estabilizar a inflação e estão fazendo um bom trabalho. Mas não têm muito poder sobre o mercado de trabalho, não há relação estreita entre as políticas do Fed e a criação de empregos. Não se deve pensar no discurso de Donald Trump de “a América ser grande de novo”. Isso é exagero. Somos o país mais rico do mundo, por uma boa margem. A renda é 30% maior do que nos principais países europeus. Não é uma crise. É verdade que há desaceleração do crescimento, que ninguém sabe se vai continuar. Isso afeta a economia. Mas não é uma questão de ficar pobre, e sim de ficar rico mais devagar.

Mas há economistas que destacam o aumento na desigualdade nos EUA…

Sim, isso está acontecendo. A renda das pessoas mais ricas está aumentando em ritmo maior do que a das mais pobres, então a desigualdade está aumentando. Mas certamente não é uma crise, (o debate) está fora das proporções.

Há quem atribua o Brexit e a popularidade de Trump a essa desigualdade…

Não sei do Brexit, mas não se pode falar de Trump como uma pessoa real. Ele nunca teve uma atividade pública, é apenas alguém com um pai rico. Não há base para esse debate de crise e “tornar o país grande de novo”. Somos o país com maior produtividade no mundo. Não é que não existam problemas a serem solucionados, mas não há uma crise. Vamos pensar nas Filipinas, no Paquistão, para não falar da Síria. Pessoas de lá adorariam ir para os Estados Unidos e poderiam ter grandes carreiras.


O Globo

 

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