Briga de bicheiros por trás da crise no Carnaval do Rio 2016

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A briga pública entre o diretor de carnaval da Beija-Flor, Laíla, e o presidente da Liesa, Jorge Castanheira, expõe um racha na entidade que controla os desfiles.

Os dois deram fortes declarações depois que veio à tona o áudio responsável pelo afastamento do jurado Fabiano Rocha: Laíla denunciou um esquema de favorecimento a determinadas escolas; Castanheira acusou o sambista de má-fé e de não saber perder. Por trás disso tudo, está a briga entre dois manda-chuvas da Liesa: os ex-presidentes Anísio Abrão David e Capitão Guimarães.

Anísio e Guimarães, companheiros há décadas como chefões do jogo do bicho e fundadores da Liga das Escolas de Samba, estão rompidos desde 2014. Naquele carnaval, Anísio ficou enfurecido por dois motivos: o não rebaixamento da Vila Isabel e o sétimo lugar da Beija-Flor. A escola de Nilópolis desfilou com um enredo sugerido por Anísio, uma homenagem a seu amigo Boni. Apesar de a maior parte da crítica especializada ter considerado o resultado justo, o patrono da Beija-Flor não engoliu ter ficado fora do Desfile das Campeãs, em seu pior resultado em mais de 20 anos. Ao mesmo tempo, a Vila Isabel de Guimarães conseguiu se manter no Grupo Especial, mesmo tendo desfilado com alas sem fantasias e carros mal-acabados. A Vila escapou com folga do rebaixamento: ficou na décima posição, com 4,4 pontos à frente da última colocada.

A metralhadora giratória de Nilópolis mirou forte a direção da Liesa naquele ano. Boni disse que houve uma “manobra” para prejudicar a Beija-Flor. Neguinho da Beija-Flor disse que o rebaixamento do Império da Tijuca foi “uma covardia”. A gritaria deu resultado. Em 2015, houve troca de mais da metade do júri. Os quesitos Fantasia e Samba-Enredo tiveram todos os seus jurados trocados. O quesito Conjunto foi extinto — uma das juradas era Sulamita Trzcina, acusada por Laíla de favorecer a Unidos da Tijuca.

Depois de todas essas modificações, a Beija-Flor foi a campeã do carnaval de 2015. Em maio passado, aconteceu nova eleição na Liesa, numa entidade claramente rachada. O patrono da Beija-Flor quis indicar outros nomes para o lugar de Jorge Castanheira, mas acabou vencido.

Anísio saiu atirando. Entregou sua carta de renúncia ao Conselho e fez algo incomum: criticou Jorge Castanheira publicamente. A justificativa era que a Liesa conduzia mal as negociações com parceiros. Após o carnaval deste ano, em que a Beija-Flor ficou em quinto lugar, novamente partiram torpedos da Baixada, na boca de Laíla. Tudo com o conhecimento de seu patrão, Anísio, em mais um capítulo da briga com Capitão Guimarães.

O Conselho ficou nas mãos apenas de Capitão Guimarães e Luizinho Drummond, o presidente da Imperatriz.

Vereadora quer abertura de CPI

A vereadora Teresa Bergher (PSDB) vai pedir hoje a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o resultado oficial dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial de 2016. É preciso da assinatura de 17 parlamentares da Casa para dar início à investigação proposta. Em 2007, Teresa presidiu outra CPI que apurava um possível pagamento de propina a jurados no carnaval daquele ano, vencido pela Beija-Flor. A denúncia das irregularidades foi feita por um delegado da Polícia Federal.

Já o Ministério Público estadual, ao ser questionado se poderia abrir inquérito para apurar a suposta manipulação das notas, respondeu que “não intervém a respeito de resultados de desfiles”. A Prefeitura do Rio, por sua vez, não respondeu aos questionamentos feitos à sua assessoria de imprensa.

As escolas de samba do Grupo Especial receberam, cada uma, verba de R$ 2 milhões para o carnaval deste ano. O valor foi o dobro de 2015, apesar da crise econômica que assola o país. O repasse sempre foi alvo de críticas do MP, que exigia a prestação de contas das agremiações, o que não acontecia.

Em 2010, foi criado o Viradão do Momo, que incluía a apresentação de sambistas nas festas do réveillon e em eventos abertos ao público nas quadras. A prefeitura passou então a repassar dinheiro para as escolas através do evento. Para o MP, no entanto, era apenas um disfarce para a quantia ser repassada para as escolas. Em 2013, após o fim do viradão, o dinheiro voltou a ser repassado diretamente para as agremiações.

De acordo com Teresa Bergher, as investigações devem ir além do áudio.

— Precisamos abrir a caixa preta da Liesa.

Áudio seria grampo

O áudio em poder da Liesa seria um grampo telefônico ilegal de uma conversa entre Fabiano Rocha e uma ex-jurada. O arquivo tem pouco mais de 4 minutos e expõe uma certa intimidade entre os dois, devido ao intenso número de risadas. Segundo fontes ouvidas por esta reportagem, na conversa há uma combinação sobre notas. Num certo momento, a mulher pede para “pegar leve” com a Vermelho e branco porque gosta da escola. Em outra parte do áudio, ela comentaria que nota certa não paga conta e que tirar ponto de bateria é mole. Em entrevista ao EXTRA, no dia 12 de fevereiro, Fabiano negou qualquer combinação de notas e disse não conhecer a ex-jurada.

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